
O estudante de Medicina Carlos Eduardo Gomes dos Santos, 21, sempre sonhou em conquistar a nota mil da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2025, o sonho se tornou realidade.
Natural de Mombaça, distante 300km de Fortaleza, e egresso da rede pública estadual, Carlos sempre pensou na educação como a chave para alcançar uma vida melhor. “É uma realização muito grande. Quando eu olho de onde eu vim e até onde cheguei, fico muito feliz”, disse, em entrevista ao Diário do Nordeste.
Superação por meio dos estudos
Após finalizar o ensino médio, em 2023, Eduardo se deparou com uma grande decepção. Não conseguiu ser aprovado em Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC), o curso dos sonhos dele. Ao longo do ano seguinte, se dedicou a estudar integralmente na casa da família, na zona rural de Mombaça, com material próprio.
Apesar das dificuldades, Carlos olha para essa época com carinho. “Quando estava do outro lado, eu adorava ver as histórias de pessoas que conseguiam a aprovação na universidade pública, pois me inspiravam. Hoje, quero retribuir isso”, afirma.
Ao olhar a lista de aprovados no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) em 2024, Carlos teve a confirmação de que tinha conquistado a tão sonhada vaga no campus de Fortaleza. Porém, mesmo após ingressar no curso, ainda continuou pensando na redação.
Segundo ele, continuar a fazer anualmente a prova se tornou não só importante para ele, mas também para as pessoas que ele prometeu ajudar. “Comecei a dar aulas para os estudantes da minha cidade, oferecendo a eles o conhecimento que adquiri. Então vi que entender mais da prova era essencial”, explica.
“A cada ano que passa, a prova da redação vem ficando mais criteriosa em relação à correção. Acredito que o ponto principal da prova, recentemente, seria a questão da originalidade. Ao longo desses anos, o meu foco foi tentar dominar essas particularidades, principalmente a originalidade e a argumentação”, avalia.
Estratégias para a redação
Na visão de Carlos Eduardo, o tema da redação de 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” era esperado entre quem estuda anualmente os padrões da prova do Enem.
“Foi um tema médio. É importante entender que, se aparece um tema muito amplo, com abordagens muito grandes, é preciso afunilar mais, deixar a rede, a correção mais criteriosa”, recomenda.
Na introdução, Eduardo citou o professor e filósofo brasileiro Boaventura de Souza Santos, e a “sociologia das ausências”. Este conceito investiga como algo considerado “não existente” é, na verdade, propositalmente invisibilizado pela sociedade hegemônica.
“O indivíduo da terceira idade é marcado por essa ‘sociologia das ausências’ quando ignoramos e invisibilizamos este grupo social”, explica. Carlos também se utilizou dos estudos de necropolítica, do filósofo Achille Mbembe. “Nós matamos essas pessoas quando não cobramos atitude de um Estado omisso, que não desempenha políticas públicas”.
Por Paulo Roberto Maciel* / Diário do Nordeste
*Estagiário sob supervisão da jornalista Nayana Siebra



