
Uma estrada que deveria ter sido asfaltada em Campo Formoso, a 230 km de Serrinha, transformou-se em mais um retrato das suspeitas envolvendo o uso de emendas parlamentares e obras públicas que nunca foram concluídas. Um ano após a liberação dos recursos, o asfalto prometido simplesmente não chegou, apesar de milhões de reais empenhados para o projeto.

Parte do dinheiro destinado à obra veio de uma emenda de 2021 vinculada ao chamado orçamento secreto — mecanismo que, à época, não identificava o autor do repasse. O recurso resultou em um convênio entre a Prefeitura de Campo Formoso e a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), estatal que tem sido alvo recorrente de investigações sobre possíveis desvios de verbas públicas.
Segundo a própria Codevasf, cerca de R$ 8 milhões seriam de contrapartida do município. No entanto, fiscalizações realizadas pelo órgão apontaram “inconsistências que comprometem a continuidade da execução” do convênio, o que contribuiu para a paralisação da obra.
O prefeito de Campo Formoso é Elmo Nascimento (União Brasil), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). O superintendente regional da Codevasf no período, Miled Cussa Filho, ocupava o cargo por indicação política de Elmar. Ele afirma que alertou a prefeitura e órgãos de controle sobre irregularidades no convênio e que acabou exonerado após colaborar com as investigações. “Encaminhei relatórios ao Ministério Público Federal e à Controladoria-Geral da União apontando as irregularidades. Depois disso, fui demitido”, declarou.

Um relatório da Polícia Federal cita que uma auditoria da CGU analisou planilhas de emendas parlamentares e concluiu que os recursos destinados à obra teriam sido encaminhados pelo deputado Elmar Nascimento. Procurado, o parlamentar negou ter destinado emendas para o asfaltamento em Campo Formoso e não quis conceder entrevista.
Enquanto a disputa de versões segue nos bastidores, moradores relatam prejuízos concretos. O caminhoneiro Jaelson Brito afirma que foi contratado para trabalhar na obra, mas não recebeu o pagamento integral. A empresa pagou só o primeiro mês. Depois, trabalhamos mais tempo e nada de receber. Meu prejuízo ficou em R$ 28 mil”, disse.
A responsável pela obra era a Allpha Pavimentações, empresa que passou a integrar o foco das investigações da Polícia Federal. Em dezembro de 2024, os proprietários da empreiteira foram presos no aeroporto de Salvador transportando grandes quantias de dinheiro em espécie. Dados do Portal da Transparência indicam que, nos últimos quatro anos, a Allpha recebeu cerca de R$ 67 milhões em recursos federais, em sua maioria provenientes do orçamento secreto.

A mesma investigação que apura o “asfalto fantasma” em Campo Formoso também alcançou outro agente político do município. Em dezembro de 2024, no âmbito da Operação Overclean, a Polícia Federal prendeu o vereador Francisco Manoel do Nascimento Neto, o Francisquinho Nascimento (União Brasil-BA), primo do deputado Elmar Nascimento. Segundo a PF, no momento da ação, o parlamentar arremessou pela janela do apartamento onde mora uma sacola com R$ 220 mil em espécie, numa tentativa de se desfazer do montante. Antes de ser vereador, Francisquinho foi secretário-executivo da prefeitura de Campo Formoso, na gestão de Elmo Nascimento.
A Allpha Pavimentações e a Codevasf estão no centro da Operação Overclean, que apura um suposto esquema de desvios estimado em R$ 1,4 bilhão ao longo de quatro anos. Em Campo Formoso, o resultado visível do repasse milionário é uma estrada inacabada, trabalhadores sem pagamento e uma sequência de episódios que colocam o município no mapa das investigações sobre o uso de emendas parlamentares e obras públicas que nunca saíram do papel. (Fonte: Portal do Cleriston Silva).



