
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, suspeita de facilitar a fuga de 16 detentos da unidade, em dezembro de 2024, foi solta na manhã desta terça-feira (17) após ficar mais de um ano na cadeia. Ela deixou a unidade com a filha, de 8 meses, que nasceu enquanto ela estava presa.
A fuga aconteceu quando um grupo de homens armados invadiu à unidade. Dois deles morreram em confronto com policiais e um foi recapturado. A polícia procura pelos outros 13 homens.
O g1 entrou em contato com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) para saber o motivo da soltura de Joneuma, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.
No dia 4 de março, a Polícia Civil cumpriu mandados de prisão e busca e apreensão em mais um desdobramento da operação sobre a fuga. Na oportunidade, a ex-diretora da unidade foi um dos alvos.
Durante as buscas de terça-feira, um suspeito conseguiu fugir após atirar contra os policiais. No imóvel onde ele estava foram apreendidos drogas, dinheiro e anotações que farão parte da investigação.
Fuga do presídio
O único foragido recapturado pela polícia foi encontrado no dia 6 de setembro de 2025.
Outros dois fugitivos foram mortos. Um deles foi Anailton Souza Santos, o Nino, morto após uma troca de tiros com a Polícia Civil em uma operação para recapturá-lo em Eunápolis, em 16 de janeiro de 2025.
O segundo foi Rubens Lourenço dos Santos, conhecido como Binho Zoião, um dos 117 homens mortos na megaoperação do Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Os outros 13 seguem foragidos.
Segundo o coronel Luís Alberto Paraíso, comandante da Polícia Regional na cidade, a fuga só foi possível devido a duas ações simultâneas. Isso porque enquanto os detentos perfuravam o teto de uma cela, um grupo de oito homens armados invadiu o presídio, atirando nos agentes de plantão.
“O grupo criminoso veio de fora do presídio, cortou a grade e começou a atirar nas guaritas. Essa troca de tiro sustentou a fuga dos elementos que desceram por cordas e fugiram pelo matagal”.
Durante a ação, os homens mataram um cão de guarda do presídio e abandonaram um fuzil calibre 5.56 — fabricado nos Estados Unidos e sem numeração aparente — no local. Dois carregadores com 57 cartuchos intactos também foram encontrados.
O objetivo da ação era libertar um homem apontado como chefe da facção criminosa de Eunápolis e mais 15 detentos.
Todos eram membros da mesma organização, que é ligada a uma facção do Rio de Janeiro, e cumpriam penas por tráfico de drogas, associação para o tráfico de drogas e homicídios qualificados.
No dia 13 de dezembro de 2024, um homem foi preso suspeito de envolvimento nas fugas dos internos. Segundo a Polícia Civil, o suspeito, que não teve a identidade revelada, confessou, durante o interrogatório, que receberia R$ 5 mil por participar da ação.
Ainda segundo a polícia, o homem afirmou ter recebido um fuzil para usar na operação. O plano previa que o armamento fosse recolhido após a fuga em troca do pagamento combinado. O suspeito preso não revelou os nomes dos demais integrantes do grupo.
Atentado contra ex-diretor
Um motorista do Conjunto Penal de Eunápolis, no extremo sul da Bahia, foi baleado enquanto dirigia nas proximidades da unidade prisional, no dia 20 de maio de 2025.
Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), a suspeita aponta que o atentado teria como alvo o diretor Jorge Magno Alves, que não foi atingido.
A Polícia Civil de Eunápolis detalhou que o crime ocorreu por volta das 17h40, na Avenida Alcides Lacerda, no bairro Arisvaldo Reis. Informações iniciais apontam que cinco homens encapuzados e com roupas camufladas usaram um armamento de grosso calibre, incluindo fuzis 7,62 mm e 5,56 mm, no veículo que geralmente era utilizado pelo gestor do presídio.
No entanto, o carro estava ocupado apenas pelo motorista da unidade prisional. A vítima, mesmo ferida, conseguiu dirigir por alguns metros até ser socorrida por policiais militares. Ele foi encaminhado ao hospital e não tinha risco de morte.
Testemunhas contaram ainda que após o ataque, os criminosos retornaram ao local e atiraram com um fuzil para o alto. A situação causou pânico nos moradores.
Em agosto de 2025, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) exonerou Jorge Magno Alves do cargo de diretor do Conjunto Penal de Eunápolis. Fabrizio Gama e Narici foi nomeado para assumir a vaga
A publicação nomeou ainda Sergio Vinicius Tanure dos Santos como diretor-adjunto do presídio. Jefferson Oliveira Perfentino da Cruz foi exonerado da função.
Participação na fuga e possível romance com chefe de facção
A ex-diretora do Complexo Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres foi presa um mês após o crime, suspeita de facilitar a fuga dos detentos.
Ela foi acusada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) de ter uma ligação com a organização criminosa da cidade e de ter se relacionado com o homem que foi apontado como chefe da facção. A ex-diretora foi encontrada no dia 23 de dezembro de 2025, perto de uma agência bancária em Teixeira de Freitas, também no extremo sul da Bahia.
Joneuma esteve à frente a unidade por nove meses e foi a primeira mulher a ocupar este tipo de cargo no estado. No entanto, apesar da representatividade, o que veio à tona após as prisões revela que o conjunto penal estava sob comando do crime organizado.
Conforme informações do processo ao qual a TV Bahia obteve acesso com exclusividade, desde que assumiu o cargo, em março de 2024, a gestora chamou a atenção das autoridades, especialmente pelas regalias dadas aos presos. Segundo informações presentes no documento, ela autorizou a entrada irregular de roupas, freezers, ventiladores e sanduicheiras.
O ex-coordenador de segurança da unidade foi uma das pessoas que revelou as irregularidades. Em depoimento, ele contou que Joneuma atendia a diversas exigências feitas, principalmente, pelo suposto chefe da facção.
Entre as regalias apontadas no depoimento, está o acesso de visitas.
Outros relatos indicaram ainda que Joneuma e o suposto líder viveram um relacionamento amoroso, com relações sexuais dentro do presídio.
Esse detalhe não foi relatado pelo ex-coordenador de segurança da unidade prisional, mas ele mencionou que Joneuma e o suposto líder tinham “encontros frequentes, que ocorriam na sala de videoconferências, sempre a sós, com uma folha de papel ofício obstruindo a visibilidade da porta pela abertura de vidro”.
O homem disse também que “as reuniões eram sigilosas e geravam estranheza entre os funcionários devido à regularidade e longa duração”.
Quando foi presa, no dia 24 de janeiro de 2025, Joneuma estava grávida. O bebê nasceu prematuro e seguiu com ela na cela, no Conjunto Penal de Itabuna, no sul do estado.
Denúncia do MP
O MP-BA ofereceu denúncia, em março deste ano, contra Joneuma, o ex-coordenador e o suposto líder da facção e os outros fugitivos. Segundo detalham os depoimentos, antes de fugirem, os detentos, que eram aliados da facção, foram colocados na mesma cela, de número 44.
Eles tiveram acesso a uma furadeira e abriram um buraco no teto da unidade, no dia 29 de novembro. O barulho não passou despercebido por agentes penais, mas a diretora só teria tomado uma atitude dois dias depois.
Foi neste momento que, segundo o ex-coordenador de segurança da unidade, ele recebeu ordem de Joneuma para buscar a ferramenta na cela, juntamente com a equipe.
Os agentes retiraram os presos e, em uma inspeção superficial, encontraram a ferramenta, que, conforme pontuou o ex-coordenador, foi mantida pela ex-diretora penal na sala dela por alguns dias. Somente pouco antes da fuga, ela pediu que o subordinado levasse o objeto para a casa dela.
Por G1



