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Morte de Orlando Matos o faz reencontrar com a figura do vaqueiro durante despedida

Orlando Matos morreu em Brasília e teve o corpo cremado em Salvador, Bahia

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A cerimônia de velório e cremação do corpo do economista Orlando Carneiro de Matos teve início em Brasília, onde ele residia, ainda na terça-feira (13), poucas horas depois do anúncio de sua morte.

Dois dias depois, nesta quinta-feira (15), e a quase 1.500 mil km de distância da capital federal, o corpo chegava a Salvador, a cidade onde Orlando se projetou para o mundo…

A cerimônia foi revestida de muita dor, mas uma dor acalentada por uma linda história. Afinal, quem estava sendo velado era um homem realizado, que trilhara caminhos difíceis desde o seu sertão de Juazeirinho, passando pelas margens do Jacuipe, até dar passos acelerados para a capital baiana, e com impulsos finais na capital federal, e em Angola, do outro lado do Atlântico.

Entre as 13 às 16 horas, a Capela C do Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, Salvador, foi tomada por familiares, amigos e admiradores de Orlando Matos, o filho primogênito de Antônio Marcolino de Matos (Antônio Vaqueiro) e Dona Antônia Carneiro de Silva Matos.

Muitas reflexões se passaram em minha cabeça a partir da celebração do diácono Zenir, numa espécie de reencontro com nossas origens. Talvez mil palavras gritadas da propriedade do pai de Zenir, lá atrás, não dariam para ouvir da fazenda Alegria, mas, de dentro da capela, tudo foi ouvido perfeitamente.

E antes da celebração final, como irmão de Orlando, tomei a palavra e agradeci em nome de todos. “Orgulhosamente, muito obrigado”. As palavras tinham o significado da gratidão, do orgulho, da amizade, do companheirismo e a confirmação de um legado enorme deixado pelo ex-aluno do Colégio Nossa Senhora da Conceição, funcionário do extinto Banco Mercantil do Nordeste, ex-funcionário do Banco do Nordeste e do Banco Central, além do professor da Universidade Católica de Salvador.

Travessia: perda e esperança

O relógio marcava 16h quando a equipe do Jardim da Saudade pegou o corpo para levar ao crematório. Dois filhos sangravam lágrimas de dor, um outro silenciava por dentro. Irmãos se abraçavam, sobrinhos se alternavam entre lágrimas e admiração. Palmas ecoaram na Capela.

Na sala de cremação, um silêncio sepulcral. Apenas se ouvia o soluço de alguns e, porque não dizer, uma certa tensão em outros. Afinal, o filho do vaqueiro Antônio estava indo embora para outro plano e de uma forma diferente: o corpo seria cremado e logo as cinzas virariam semente.

De início, a voz deslumbrante de Milton Nascimento surge em Travessia. “Quando você foi embora / Fez-se noite em meu viver / Forte eu sou, mas não tem jeito / Hoje eu tenho que chorar…”. Ali, apesar do esforço, me deparei com uma sensação de perda, ao dar conta de que aquela era uma viagem definitiva…

Mas também havia uma sensação de paz advinda de um conjunto de ações positivas, fazendo com que tristeza e alegria se alternassem a todo instante. Porque, apesar do tom de despedida, a canção também trazia o alento da esperança, o que acabou confortando os que estavam mais sufocados: “Vou seguindo pela vida / Me esquecendo de você / Eu não quero mais a morte / Tenho muito que viver…”

A morte do vaqueiro: imagens do passado

Quando a voz forte de Luiz Gonzaga entoando a canção A morte do vaqueiro surgiu, acabei mergulhando em pensamentos para entender o que se passava. A leitura me remeteu a um passado distante, onde imaginei o menino nas cercanias do sertão que ele havia deixado para trás.

Sob a voz de Gonzaga, que traçava os caminhos de cada lágrima escorrendo nos rostos, ia imaginando o menino a caminho da escola, em Juazeirinho, ou crescendo e correndo nos campos da fazenda Alegria, em Riachão. E, em cada verso, novas imagens iam surgindo, e logo apareceu um adolescente nos corredores do Nossa Senhora da Conceição fazendo o rito de passagem para um rapaz alto e forte e, porque não dizer, bonito e atraente, nos bailes da cidade.

As imagens embaladas pela voz do Rei do Baião já ecoavam na capital baiana, aonde o filho de um vaqueiro e uma dona de casa chegara para conquistar o mundo, já depois de meados da década de 60. E vejo a minha mãe, com um rádio, vibrando com a sua primeira conquista. E surgem também imagens de Fortaleza, Brasília, Angola, e de tantos lugares por onde ele andou…

Mas o canto de Gonzaga ainda ecoava por todo o salão: “Numa tarde bem tristonha / Gado muge sem parar / Lamentando seu vaqueiro / Que não vem mais aboiar…”

Não era um vaqueiro, mas era o filho de um vaqueiro; não era no sertão, mas era num final de tarde, e na mesma cidade onde tudo começou… De repente a música silencia e as imagens desaparecem. Logo percebo um salão mudo, mas com lágrimas e emoção em quase todos os rostos. Nesse interim, o cerimonial anuncia e o caixão desce para a cremação. Uns olham sem parar, outros fecham os olhos. Mais uma demorada salva de palmas. Era a última cena.

Por Evandro Matos

 

 

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