O som da bola na rede combinado com a euforia da torcida é o sonho de todo jogador. Não existe momento de emoção maior no futebol do que um gol. Cada atleta tem a sua comemoração: seja um movimento que virou marca, uma dança, um agradecimento religioso… celebrar é regra. Para o maior artilheiro da história do Botafogo, isso era diferente. Quarentinha, que faleceu há exatos 30 anos, ficou conhecido por não comemorar seus gols.
Paraense, Quarentinha atuou por Paysandu e Vitória antes de chegar ao Botafogo, em 1954. Artilheiro em Belém e Salvador, demorou para se firmar no Rio de Janeiro. Foi somente após um empréstimo para o Bonsucesso, em 1956, que ganhou espaço no Botafogo.
Sob comando de João Saldanha, o Botafogo foi campeão carioca em 1957 com direito a um 6 a 2 sobre o Fluminense no jogo do título. Era o início de uma era brilhante do clube. Quarentinha não foi o artilheiro daquele ano (Paulinho Valentim, também do Botafogo, fez 22 gols), mas levou o prêmio em 1958, 1959 e 1960.
A história de Quarentinha é contada no livro “O Artilheiro que Não Sorria”, do jornalista Rafael Casé. Depois de muitos anos esgotada, a obra ganhou uma nova tiragem pela editora Mauad. Ao ge, o autor explica o motivo do maior artilheiro da história do Botafogo não ser tão lembrado no clube.
— Com toda certeza a figura de Quarentinha deveria ser mais valorizada pelo Botafogo, afinal é seu maior artilheiro, com 313 gols. Acho que por ter sido contemporâneo dos dois maiores ídolos do clube, Nilton Santos e Garrincha, acabou fazendo com que se tornasse um coadjuvante. E que coadjuvante, né? Afinal, para sempre será o maior artilheiro da história do Botafogo – disse Rafael Casé.
Nem mesmo o sucesso do Botafogo, as propagandas e o destaque em jornais mudaram quem era Waldir Cardoso Lebrego. Quarentinha era um homem tímido, simples e calado. Em campo, um artilheiro que não tinha pena dos adversários. Causava medo nos goleiros somente com a fama de seu chute. Quem já conhecia, não queria ver aquela finalização de novo.
Mas algo acontecia nos poucos segundos entre o chute, o gol e a volta ao centro do campo. O artilheiro Quarentinha voltava a ser Waldir por um instante. Enquanto os jogadores pulavam, os torcedores gritavam e o Botafogo comemorava, Quarenta, muitas vezes cabisbaixo, voltava ao lado oposto do campo para a partida continuar. O artilheiro não comemorava os gols.
Ele dizia que era pago para marcar gols. Não fazia sentido comemorar. Pelo Botafogo, Quarentinha foi tricampeão carioca (1957, 61, 62), bicampeão do Torneio Rio-São Paulo (1962 e 64) e conquistou torneios amistosos ao redor do mundo, à época algo valorizado pela imprensa e torcedores.

— Não creio que o fato de não comemorar seus gols tenha sido a causa. Para o torcedor, o importante é bola na rede e isso ele sabia fazer muito bem. Tinha um canhão na perna esquerda. Sua timidez não permitia que se destacasse tanto. Era um cara simples e também sofreu muito com o preconceito que havia contra jogadores negros naquela época – continuou Rafael Casé.
Quarentinha fez o último jogo pelo Botafogo no dia 21 de novembro de 1964, no empate por 1 a 1 com o Bonsucesso, o outro clube carioca que defendeu. A saída foi sem homenagens, algo que deixou o artilheiro magoado, como conta o biógrafo:
— Foi dispensado como um jogador qualquer. Só voltou ao clube na reinauguração de General Severiano em 1995, quando participou de uma pelada de ex-jogadores e recebeu o carinho dos torcedores. Naquela mesma noite passou mal, talvez pela emoção do dia especial. Não se recuperou mais e veio a falecer.

Waldir Cardoso Lebrego faleceu no dia 11 de fevereiro de 1996, há exatos 30 anos. Ele está na primeira colocação da artilharia do Botafogo e é o quinto jogador que mais vezes defendeu o clube, com 444 partidas.
Por Ge



