A partir desta quinta-feira (27) até o próximo sábado (29), as ruas de Lençóis respiram cinema. A temporada de festivais da Chapada Diamantina tem início pelas telas, contando um pouco da história da região através do 1º Festival de Cinema de Lençóis. O documentário “Mulheres de Sol”, dirigido por Jamille Fortunato e Rodrigo Rodowicz, é uma dessas histórias que testemunha a tradição das tocatas da Sociedade Phylarmônica Lyra Popular, instituição que durante quase um século foi formada exclusivamente por homens.
Para as mulheres, restava apenas a vontade de tocar e o papel de aplaudir, especialmente na procissão de Nosso Senhor dos Passos, festa tradicional registrada como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Esta exclusividade masculina começou a ruir em 1997, quando as primeiras meninas entraram na escolinha recém criada, conquistaram seu espaço e, anos depois, chegaram ao comando de uma das mais antigas organizações culturais da Chapada Diamantina.
“O filme registra esse processo de luta por espaços que historicamente eram negados, lembrando que aquilo que hoje parece natural foi conquistado por mulheres que resistiram. A importância de ‘Mulheres de Sol’, para mim, é registrar uma ruptura que poderia facilmente desaparecer da memória”, diz a diretora Jamille.

Para Rodrigo, co-diretor, esse filme é um marco histórico na região, visto que ainda são poucas as instituições comandadas por mulheres nos dias de hoje. O filme revela a trajetória das primeiras meninas, filhas e netas de garimpeiros, que desafiaram o conservadorismo local para aprender e tocar trompete, saxofone, clarinete e trombone.
“Mulheres de Sol” acompanha desde o encantamento diante da banda que há 123 anos toca pelas ruas de Lençóis e vai ganhando outra dimensão quando as musicistas passam a disputar espaços de decisão. Em meio a boicotes e pressões, elas se organizam para assumir o comando da instituição. Clésia Diamantino, uma das personagens que já presidiram a filarmônica, diz o que a motivou para fazer este argumento.
“Muitos não aceitam as qualidades de uma mulher. Sempre querem comparar, ou reduzir, simplificar o nosso trabalho. ‘Mulheres de Sol’ mostra para as pessoas um pouco das lutas travadas pelas mulheres ao longo da história, ainda sem o devido reconhecimento apenas por sermos mulheres. Ao mesmo tempo, mostra essa força que nós temos, nossa capacidade de planejar, executar, organizar e administrar uma instituição centenária como a Lyra Popular de Lençóis”.
Além de Clésia, o filme é conduzido pelo depoimento de outras três protagonistas: Elisângela Fernandes, Odilaine Botelho e Fernanda Alcântara (atual presidente). Elas revelam o custo de ousarem ser líderes em uma sociedade historicamente machista.
“Mulheres de Sol” é um documentário sobre o preço que se paga para que mulheres conquistem espaços, enquanto também é uma declaração de amor à forte identidade de orquestra filarmônica que existe na Chapada Diamantina.
Este projeto foi contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal.
Por Correio



