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Fim das bets não acaba com o problema: entenda como o vício em apostas afeta o cérebro e a vida

Proibição das plataformas coloca a ludopatia novamente em debate; especialistas alertam para endividamento, isolamento, sofrimento psíquico e maior exposição de jovens ao jogo

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Crédito: Shutterstock

O fim das bets no Brasil não significa, necessariamente, o fim dos problemas deixados pelo jogo compulsivo. A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets no país, incluindo apostas esportivas e jogos online em ambientes físicos e virtuais.

A medida não alcança outras modalidades lotéricas autorizadas por lei, como as loterias tradicionais. Pelo cronograma estabelecido, os apostadores tiveram até 23h59 de 5 de outubro para retirar os saldos. Os sites e aplicativos deveriam ficar indisponíveis a partir de 6 de outubro, enquanto as autorizações existentes serão extintas em 25 de outubro. A MP tem efeito imediato, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional.

Enquanto o mercado passa por essa mudança, outro problema permanece no centro da discussão: a ludopatia, também chamada de transtorno do jogo. A redução da oferta e da publicidade das apostas pode mudar o ambiente em que o comportamento compulsivo se desenvolve, mas não elimina automaticamente os casos já existentes nem os prejuízos provocados pela dependência.

Milhões de brasileiros já tiveram contato com apostas

Dados citados pelo Ministério da Saúde indicam que mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores a um levantamento realizado em 2023. Desse grupo, 10,9 milhões apresentavam padrão de risco. Esse número, porém, não corresponde à quantidade de pessoas com diagnóstico de transtorno do jogo. A estimativa é de aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros que atendem aos critérios clínicos para a condição.

A dimensão do problema também aparece nos atendimentos de saúde. Segundo o Ministério da Saúde, os registros relacionados ao jogo patológico e a complicações envolvendo apostas cresceram 140% entre 2018 e 2025. Outro indicador vem dos próprios usuários que buscaram interromper o acesso às plataformas. De acordo com o Ministério da Fazenda, mais de 1,3 milhão de pedidos de autoexclusão haviam sido registrados até agosto de 2026. Em 35,93% dos casos, a justificativa apresentada foi a perda de controle e os impactos na saúde mental.

Quando diversão passa a ser transtorno?

Para o psiquiatra Rodrigo Lancelote, do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, o jogo passa a ser considerado um transtorno mental quando deixa de ser uma atividade controlada e recreativa e começa a produzir prejuízos concretos. “O jogo passa a configurar um transtorno mental quando deixa de ser uma atividade controlada e recreativa e passa a provocar prejuízos concretos, como endividamento, sofrimento psíquico e comprometimento de relações interpessoais”, explica.

Segundo o especialista, os jogos de azar são vistos por muitas pessoas como uma forma legítima de entretenimento. O problema surge quando o envolvimento com as apostas cresce em frequência, tempo e dinheiro e passa a interferir em outras áreas da vida. O comportamento de jogo patológico costuma evoluir em diferentes etapas.

Na fase inicial, os ganhos podem ser interpretados pelo jogador como resultado de habilidade, aumentando a confiança e estimulando a repetição das apostas. Com o tempo, as perdas se tornam mais frequentes e surge a tentativa de recuperar o dinheiro perdido por meio de novos jogos. Em um estágio mais avançado, podem aparecer isolamento, conflitos familiares, esgotamento emocional e comprometimento significativo da vida cotidiana.

“Chamamos de comportamento de jogo patológico, e ele costuma evoluir em três fases distintas. Na fase inicial, os ganhos são interpretados como indicativos de habilidade, o que leva à repetição do comportamento. Depois, o jogador passa a perder com frequência e tende a reinvestir recursos na tentativa de reverter o prejuízo. Já no estágio final, observa-se aumento do isolamento, dificuldades familiares, esgotamento emocional e comprometimento funcional relevante”, afirma Lancelote.

Dívida não é o único prejuízo

Os impactos das apostas compulsivas podem aparecer muito além da conta bancária. O comportamento pode afetar a produtividade no trabalho, o convívio familiar e a saúde mental. Em alguns casos, o jogo passa a ocupar tanto espaço na rotina que outras atividades, relações e projetos pessoais são deixados de lado.

“É comum que o jogo se torne um elemento organizador da rotina do indivíduo, substituindo relações, ocupações e projetos pessoais. As consequências incluem a inadimplência, perda do emprego, conflitos conjugais e exposição a riscos legais”, complementa o psiquiatra. O quadro também apresenta elevada associação com outros problemas de saúde mental. Entre eles estão transtornos do humor, bipolaridade, ansiedade generalizada, estresse pós-traumático e dependência de substâncias.

O Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, cita estudos internacionais segundo os quais até 75% das pessoas com problemas relacionados às apostas apresentam outra condição de saúde mental. Essa associação pode tornar o tratamento mais complexo.

“Não é raro que o jogo seja utilizado como uma tentativa de regulação emocional ou fuga de situações adversas. Isso torna o comportamento particularmente resistente à mudança, especialmente quando não há um olhar clínico ampliado para as condições associadas”, analisa Lancelote.

Mulheres também estão entre as pessoas afetadas

Embora historicamente o transtorno do jogo seja mais frequente entre homens, as mulheres também aparecem de forma significativa nos atendimentos. De acordo com o Guia de Cuidado do Ministério da Saúde, com base em registros do SUS, 43% dos atendimentos realizados em 2024 por jogo patológico e mania de jogo e aposta foram de mulheres, enquanto os homens representaram 57%. A maior concentração ocorreu entre pessoas de 20 a 49 anos.

Segundo o psiquiatra, as mulheres tendem a apresentar maior prevalência de sintomas depressivos e também podem utilizar o jogo como uma forma de lidar com situações de sofrimento emocional. Outro ponto de preocupação é a exposição de adolescentes e jovens adultos às apostas digitais.

A facilidade de acesso por celular e outros dispositivos permite que o contato com esse tipo de conteúdo aconteça de maneira contínua. Dados da Frente Parlamentar da Educação, divulgados pelo Equidade.info, apontam que 20,4% dos estudantes de escolas públicas e privadas já apostaram online.

O levantamento indica ainda que o contato com as apostas pode começar aos 11 anos. Entre os meninos do terceiro ano do ensino médio, a proporção chega a 49,7%. Para Lancelote, características próprias das plataformas digitais podem aumentar a vulnerabilidade de determinados grupos. “A acessibilidade contínua, aliada a elementos como recompensa imediata, gamificação e anonimato, torna o ambiente propício ao desenvolvimento de padrões compulsivos, especialmente em indivíduos com maior vulnerabilidade psíquica ou social”, pontua.

Tratamento não se resume a parar de apostar

Quando o comportamento já se tornou compulsivo, simplesmente retirar o acesso às plataformas pode não ser suficiente. O tratamento da ludopatia exige uma abordagem multidisciplinar e individualizada, de acordo com as necessidades de cada paciente. Entre as estratégias utilizadas estão terapias psicodinâmicas, abordagens comportamentais e grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos. Em determinadas situações, também podem ser necessárias intervenções farmacológicas para tratar condições psiquiátricas associadas.

O acompanhamento deve considerar a história de vida do paciente, o contexto social, o histórico familiar e os hábitos de consumo. Além do atendimento psicológico e psiquiátrico, questões práticas também podem fazer parte do cuidado. A reorganização financeira, por exemplo, pode ser necessária quando o paciente acumulou dívidas ou perdeu o controle dos gastos.

“Além da escuta clínica, é importante oferecer suporte em áreas práticas, como reorganização financeira e reconstrução da rede de apoio. Técnicas de prevenção de recaída, treinamento de habilidades sociais e planejamento de atividades complementares são recursos frequentemente utilizados”, afirma o especialista.

SUS oferece atendimento pela rede de saúde mental

Quem enfrenta problemas relacionados às apostas pode procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O cuidado é realizado por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com participação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Segundo as informações apresentadas, essas unidades funcionam no sistema de portas abertas, sem necessidade de agendamento prévio.

Outra possibilidade é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a pessoa pode receber acolhimento e orientação sobre o atendimento adequado. Apesar da existência da rede, o desconhecimento sobre o transtorno e a falta de capacitação específica ainda dificultam a identificação precoce e o encaminhamento correto de alguns casos. “É fundamental que os profissionais estejam preparados para reconhecer o quadro e atuar de forma integrada com a rede”, afirma Lancelote.

Com a proibição das bets, o debate sobre as apostas no Brasil passa a envolver não apenas a oferta autorizada, mas também a continuidade do cuidado de quem já desenvolveu problemas relacionados ao jogo. A própria medida provisória prevê a criação de um comitê interinstitucional para fiscalizar a exploração e a publicidade ilegal de apostas.

Para além da fiscalização, especialistas defendem atenção às estratégias de prevenção. Embora o Ministério da Saúde participe das discussões por meio de grupos interministeriais, ainda existem lacunas na articulação entre os diferentes setores envolvidos e na implementação de ações educativas.

“Qualquer avanço na regulamentação precisa considerar os riscos à saúde pública. A existência de um marco legal não elimina a necessidade de campanhas de informação, capacitação de profissionais e fortalecimento da rede de cuidado. O Brasil ainda carece de um plano nacional específico para o enfrentamento da ludopatia”, conclui o psiquiatra.

Assim, mesmo com a mudança no funcionamento das plataformas de apostas, o desafio permanece: identificar quem já perdeu o controle, reduzir os danos e ampliar o acesso ao tratamento antes que as consequências financeiras, familiares e emocionais se agravem.

Por Correio

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