História

Primeira prisão de Carlos Marighella aconteceu há 80 anos no Pelourinho

Logo mais, quando a noite cair sobre o Terreiro de Jesus, completará 80 anos a primeira prisão de Carlos Marighella (1911-1969), um dos baianos mais conhecidos do planeta. Foi ali, no prédio da Faculdade de Medicina, que o então estudante de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia e outros 513 universitários se renderam às tropas de Juracy Magalhães, o interventor despachado para o estado pelo presidente Getulio Vargas.

Em 22 de agosto de 1932, nasceu uma história política que só terminaria à bala, com o assassinato de Marighella. Ou melhor, pareceu terminar: nunca ele foi tão falado e comentado como hoje.

A internet e a MTV exibem clipe com direção de Daniel Grinspum e música dos Racionais MC’s, dedicada ao revolucionário carimbado pela ditadura militar (1964-1985) como seu inimigo número um. Por todo o Brasil, também em Salvador, os cinemas passam Marighella, documentário de sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz.

A revista Piauí de agosto narra a prisão, em 1964, do antigo deputado federal comunista (1946-1948). É a íntegra do primeiro capítulo do meu livro Marighella – o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo. A biografia consumiu nove anos de trabalho. Sai em outubro, pela editora Companhia das Letras.  

Primeiras batalhas

Exatas oito décadas atrás, Marighella era um dos acadêmicos do ensino superior que reivindicavam a elaboração de uma Constituinte democrática no país. Aqui em Salvador, eles se uniram aos garotos do legendário Ginásio da Bahia, que se mobilizavam pelo adiamento das provas. Ocuparam a Faculdade de Medicina, gritaram slogans contra o autoritarismo, proclamaram “Às armas, baianos!” e empunharam velhos fuzis de Canudos.

Um homem foi morto na refrega com militares e policiais. O bacharel Nelson Carneiro, um dos líderes da ocupação e futuro senador da lei do divórcio, foi detido e tomou uma tunda dos tiras. Encarcerado por dois dias, Marighella compôs na penitenciária um poema atacando Juracy, que não o perdoou. Os originais do inquérito, em papel almaço intacto, foram uma das minhas fontes para reconstituir o episódio.

Internacional

Muito tempo mais tarde, no finalzinho dos anos 1960, Marighella e sua organização armada, a Ação Libertadora Nacional (ALN), viriam a receber apoio de celebridades como o pintor Joan Miró, o filósofo Jean-Paul Sartre e os cineastas Jean-Luc Godard e Luchino Visconti.

No Brasil, colaboraram com a ALN artistas como Augusto Boal, Norma Bengell e Glauber Rocha – como Marighella, ex-aluno do Ginásio da Bahia, colégio depois denominado Central. Os escritos de Marighella viajaram mundo afora. As buscas no Google estampam seu nome como autor de textos reproduzidos em idiomas, para nós, exóticos.

Por mais que tenha se tornado uma personalidade internacional, Marighella jamais diluiu sua identidade -“Sou um mulato baiano”, definiu-se à poeta Ana Montenegro (entrevistei-a para o livro).

No Ginásio da Bahia, ele se beneficiou da reforma implementada pelo educador Anísio Teixeira. Teve aulas com a primeira mulher a lecionar na instituição, Heddy Peltier Cajueiro (outra entrevistada). Sua prova de física respondida em versos jamais foi esquecida, testemunhou um aluno bem mais novo, o futuro governador Antonio Carlos Magalhães (também entrevistado).

Conexões baianas

Candidato vitorioso a deputado em 1945, Marighella apoiou na campanha a construção de um estádio na Fonte Nova – por coincidência, nascera ali pertinho, como revela sua certidão. Pelejou de novo contra Juracy Magalhães, seu colega na Constituinte de 1946. Subiu no palanque do candidato a governador Otávio Mangabeira, em 1947, e não tardou a romper com ele.

Teve como motorista o camarada João Falcão (com quem conversei), depois um dos empresários mais bem-sucedidos do estado. Foi amigo de Jorge Amado e Zelia Gattai. Caetano Veloso e Gilberto Gil (este me deu depoimento em Brasília) simpatizavam com sua luta.

O trio elétrico passa pela família Marighella: Osmar Macedo, um dos seus criadores, foi aprendiz na oficina mecânica do italiano Augusto, o pai de Marighella, na Baixa dos Sapateiros. A mãe, Maria Rita, era uma descendente de escravos africanos vinda ao mundo em maio de 1888, o mês da Abolição.

Memorial 

A prisão em 1932 e a perseguição desencadeada pelo poema escrito na cadeia o impediram de se formar engenheiro. Em 1934, ele ingressou no Partido Comunista, como lembrou em detalhes numa autobiografia manuscrita em Moscou e à qual tive acesso. Marighella foi dos poucos brasileiros espionados pela CIA, agência dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo monitorado pelo KGB, sua congênere da ex-União Soviética.

Suas batalhas ecoaram longe, mas Marighella teve uma história entrelaçada como poucas à da Bahia e seu povo. Quando lançar o livro em Salvador, entregarei ao seu filho, o advogado Carlos Augusto Marighella, preciosidades documentais que acumulei na garimpagem de informações por quase uma década. Será o meu tijolinho para a construção de um memorial Marighella em sua terra.

Por Mário Magalhães é jornalista e escritor – Fonte: Correio

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