
Ao contrário de Cazuza (1958-1990), Raul Seixas (1945-1989) ainda não conquistou o coração da geração Z, aquela, muito malhada em análises de comportamento, mas que detém o poder de levar fatos e artistas do século passado adiante. (A exposição do MIS tem 16 salas temáticas sobre a obra de Raul Seixas Foto: Taba Benedicto/ Estadão).
Cazuza ainda vive em ídolos da juventude, como Jão. Não é a mesma coisa, mas conecta o passado ao presente. E isso é fundamental. Raul continua sendo o profeta, aquele que falou de coisas que parecem nunca terem chegado. Não por culpa dele.
A exposição Baú do Raul, que abre nesta sexta-feira, 11, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS), com previsão de ficar em cartaz até 28 de setembro, é grande aliada à série Raul: Eu Sou, recém-chegada ao Globoplay para tentar furar essa barreira. Raul ainda é dos raulseixistas, seu fã-clube fiel. Merece ir além, no ano em que completaria 80 anos.
Para explicitar a genialidade de Raul, a exposição que tem curadoria de André Sturm e coordenação de Renan Daniel e Vanessa Rodrigues, investe em cenografia, cores. Tudo é grande. Precisa saltar aos olhos do público. Bruno Ogura, que assina o projeto cenográfico, confirma ao Estadão que, de fato, esse é objetivo: Olhem aqui, vejam! Esse é o Raul!
A fita cassete gigante na entrada apela tanto ao saudosismo quanto à curiosidade. Depois do vinil, parece que a geração Z quer descobrir o que é ouvir música em fita cassete. Uma caneta, na mesma proporção, faz referência ao ato de tentar rebobinar a fita. É ruim, mas tentem. Experimentar vale a pena.
A exposição tem 16 áreas temáticas inspiradas pelas principais canções de Raul. A alegoria dedicada a Maluco Beleza tem neons e o rosto do artista formado por inúmeras fitas cassetes e VHS. Criativa e bem executada, como há tempos não se vê em uma exposição dedicada a um artista.
Logo em seguida, um amplificador, também gigante, traz, dentro dele, um caleidoscópio com imagens de Raul. Ponto ideal para fazer um vídeo e postar nas redes sociais. Raul precisa circular. Na sala que aborda Mosca na Sopa, uma parede com espelho faz o visitante dar de cara consigo. O que você está fazendo para perturbar o sistema?
Em uma atração paga à parte (R$10) do ingresso para a exposição (R$ 30), até três pessoas poderão cantar, em um palco sob um disco voador, músicas do homenageado. No final, um QR code disponibiliza o vídeo da apresentação. Basta postar e espalhar ainda mais Raul.
No entanto, para entender melhor a genialidade Raul é preciso mergulhar no mundo analógico, curvar ou esticar o corpo para buscar entre os inúmeros documentos espalhados pelo espaço expositivo pistas sobre como a mente do roqueiro funcionava. São peças do acervo de Sylvio Passos, o mais célebre dos raulseixistas, e de Kika e Vivi Seixas, ex-mulher e filha de Raul, respectivamente.
Sylvio Passos, amigo de Raul, visita a exposição ‘Baú do Raul’. Ele se tornou uma das mais fortes referências sobre o cantor Foto: Taba Benedicto/ Estadão
Em um caderno no qual ele anotou cuidadosamente a produção do álbum Gita, de 1974, é possível ler, ao lado do nome de cada canção, o ‘gênero’ ou pegada de cada faixa. Sociedade Alternativa, por exemplo, abreviada como SALT, pedia “pêso”; Medo da Chuva era um “yê-yê-yê romântico”; Não Pare na Pista foi pensada para ser “pop”. Os manuscritos mostram ainda que o repertório do disco mudou até chegar ao público.
Dentro de um imenso baú cenográfico, entre outras relíquias, há um caderno que expõe os estudos que Raul fazia sobre psicologia. Ele anotou sobre como a libido evolui “no homem normal”: fases oral, sádico-anal, fálica etc… Na página seguinte, estava interessado em como a pesquisadora e educadora Iva (Waisberg) Bonow elencava “as principais disciplinas psicológicas”.
Se a série do Globoplay mostra Raul e Paulo Coelho escrevendo e rabiscando a letra de Al Capone, o papel que sobreviveu ao tempo traz tudo muito bem arrumadinho – teria sido passado a limpo? As letras de Tente Outra Vez e Rock das Aranhas têm mais rabiscos do que essa.
A exposição dá pistas mais exatas da metamorfose ambulante de Raul ao exibir uma carta que Raul escreveu para a Divisão de Censura de Diversões Públicas, aquela altura já prestes a caducar, no qual defende a liberação da letra de Não Quero Mais Andar na Contra Mão. “Estou pessoalmente enviando-lhe a letra de minha autoria, censurada anteriormente em 1986, solicitando a gentileza de uma reavaliação”, diz o início do documento.
Raul argumentava aos censores da época, aos quais, após a abertura política, restava apenas zelar pela “moral e os bons costumes”, que a letra não fazia apologia às drogas. Poderia ser até aliada à campanha do governo que tinha o slogan ‘Diga não às drogas’. Ele apelou ao exemplo de Elvis Presley, seu grande ídolo:
“Tenho mais de uma dezena de fã-clubes e sei, através deles, que sou considerado um guia, assim como Elvis foi para a minha geração. Acho que o meu documento, através do trabalho, e com o alcance que ele tem no meio dos jovens, só virá acrescentar ao esforço mundial, eu diria, contra o libelo das drogas”.
O público poderá se caracterizar como Raul e cantar em um karaokê, na exposição ‘Baú do Raul’ Foto: Taba Benedicto/ Estadão
Quem não tem colírio usa óculos escuros, certo? Um esforço de Raul em sair do buraco em que se enfiou entre 1982 e 1985, fase mais pesada de seus vícios, ou mais um grande tapa na cara do sistema? A mosca na sopa de quem achava que um roqueiro como ele não poderia ser exemplo de nada. Elvis foi, como lembrou Raul.
Meio perdidas dentro do tamanho dos cenários, algumas fotos interessantes, como as que mostram Raul no programa do apresentador Silvio Santos. Sem camisa, com uma capa nas costas, o cantor desperta a curiosidade de Silvio. Dá para imaginar as perguntas sem sentido que Silvio deve ter feito a Raul.
Próximas dessas estão as de Raul no programa de Flávio Cavalcanti. A cara do comunicador, conhecido por quebrar discos em frente às câmeras e achincalhar novos artistas, é de reprovação.
Há ainda figurinos originais de Raul – são cerca de 600 itens de acervo espalhados pelos dois andares da exposição. Entre eles, uma jaqueta de couro usada por Raul no show Abra-te Sésamo, de 1980.
Vivi Seixas, filha de Raul, observa o pijama que o pai usava quando morreu, em 1989 Foto: Taba Benedicto/ Estadão
O pijama listrado que ele usava quando foi encontrado morto, em 21 de agosto de 1989, no apartamento em que morava na rua Frei Caneca, em São Paulo, está no segundo andar da mostra, lembrando o dia em que Raul deixou de sonhar para encontrar o mundo real.
O fotógrafo do Estadão, Taba Benedicto, flagrou o momento no qual Vivi Seixas observa o pijama. Ela, que cuida do legado do pai, não sabia que Sylvio Passos havia preservado a peça. Ela confessou que não tinha como não se emocionar em estar frente à relíquia.
Resta às novas gerações decifrarem as mensagens de Raul. O mundo real de “o meu prazer agora é risco de vida”, cantado em Ideologia por Cazuza é muito mais duro do que a libertária “se eu te amo e tu me amas, e outro vem quando tu chamas, como poderei te condenar” de A Maçã de Raul. Tudo mudou muito rápido dos anos 1970 para os 1980. E muito mais veloz nas décadas seguintes.
Talvez quem esteja por 2025 encontre Raul em meio a papéis amarelados pelo tempo na exposição Baú do Raul do MIS. Ou na interpretação exemplarmente bem construída, mas dentro de uma obra de ficção, do ator Ravel Andrade na série Raul: Eu Sou. Ou, ainda, quando Maria Bethânia afirma que segue cantando Gita por ser uma canção épica. Novamente: Raul é um profeta. Sua mensagem atravessa o tempo. Dez mil anos atrás ou à frente.
Baú do Raul
- Onde: Museu da Imagem e do Som (MIS-SP). Av. Europa, 158, Jardim Europa.
- Quando:De 11/7 a 28/9. 3ª a 6ª, 10h/19h; sábado, 10h/20h; domingo, 10h/18h.
- Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia); entrada gratuita às terças-feiras.
Por Danilo Casaletti / Estadão



