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Copa Mundo ressalta ligação e renova reconhecimento histórico entre a Bahia e Cabo Verde

Relação entre o estado e a nação africana remonta a história do Brasil, transcendendo a colonização portuguesa no país.

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Com mais nativos fora do país do que no arquipélago pelo qual é formado, Cabo Verde se tornou um dos protagonistas durante a Copa do Mundo 2026 e recebeu um intenso apoio da torcida brasileira, que adotou o país como “irmão” na competição. Mas apesar da recente “descoberta” por parte de muitos torcedores, a relação do país africano com o Brasil e, em especial, com a Bahia, é antiga.

Em entrevista ao g1, o professor visitante da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e doutor em História, Elias Alfama Moniz, detalhou que a nação possui uma série de semelhanças com a Bahia.

Nativo do país africano, o especialista explica que Cabo Verde foi utilizado pelos portugueses como um ponto intermediário para a chegada às Américas durante as expedições colonizadoras em busca das “Índias Orientais”. Só que os portugueses nunca chegaram ao que chamavam de “Índia”, e sim à América

Diante desse acidente, o país se tornou não só um ponto de parada durante a colonização portuguesa, mas também um dos locais de onde cativos foram transportados para o Brasil e, em algum ponto, para a Bahia.

“A nossa historicidade é muito mais longa, não começa de maneira nenhuma no século XXI. A Copa do Mundo nos colocou mais ou menos em cena, mas a nossa sociedade compartilhada é profunda e longa no tempo”, enfatiza o professor.

Cerca de 700 mil cabo-verdianos vivem fora do país, número que supera a população de nativos nas ilhas da nação, que é de 560.899 habitantes. Conforme o Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde (INE-CV), o Brasil é o quarto país mais escolhido como destino pelos emigrantes.

Durante o último jogo da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo 2026, no qual o país enfrentou a Argentina, a comunidade cabo-verdiana de Salvador impressionou os soteropolitanos ao lotar bares da capital para torcer pelo time. Ao lado dos baianos, os cabo-verdianos vibraram contra o rival em comum e torceram para os heróis do futebol do país, como o goleiro Vozinha e o lateral-esquerdo Sidney Lopes Cabral.

Ao site, a cabo-verdiana e internacionalista Ana Furtado, de 29 anos, contou que o momento foi de muita alegria. Na capital baiana desde os 16 anos, ela relata que receber o apoio dos torcedores do estado reforçou o sentimento de irmandade que sentia com relação ao Brasil desde a infância.

“Eu sinto que Cabo Verde já tem essa troca muito próxima com o Brasil. Cabo Verde coloca o Brasil como um irmão mesmo, sempre [foi] muito claro para mim”.

Apesar dessa percepção, ela precisou explicar onde ficava seu país natal muitas vezes ao longo dos anos na Bahia. Entre as piadas com o sotaque que possui e insinuações sobre sua origem, Ana percebeu que no Brasil há uma espécie de “apagamento” da relação entre os dois países.

“Isso é uma coisa muito comum, as pessoas começarem a imitar o sotaque enquanto conversam comigo. [Quando isso acontecia] Eu automaticamente já me frustrava e começava a tentar fazer um sotaque brasileiro”, conta.

Essa sensação ultrapassava as relações interpessoais e chegou a ser observada por ela em pontos de visitação turística. “Lembro quando fui visitar um museu e tinha um mapa gigantesco. E adivinha? No mapa não tinha Cabo Verde e eu fiquei horrorizada”.

Neste cenário, a formação de uma comunidade com conterrâneos foi algo essencial para a adaptação na cidade. Formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), a jovem conseguiu construir um grupo de amigos com o qual pôde enfrentar algumas barrerias. Atualmente, ela mantém essa rede por meio de um grupo em um aplicativo de mensagens que tem cerca de 50 integrantes.

Acostumada com o papel quase político de contar a origem de seu país, a jovem viu na repercussão da passagem de Cabo Verde na Copa do Mundo uma oportunidade para novas formas de encontros com cabo-verdianos na Bahia e de aproximar as duas nações.

“Eu vejo que muita coisa tem mudado. Não trazendo apenas a questão do futebol, mas, por exemplo, durante o carnaval teve um bloco específico para Cabo Verde lá no Pelourinho. Agora tem o voo aqui mais perto. […] Recebi mensagens de pessoas e amigos que querem ir [para o país africano] por conta própria e fazer suas pesquisas”.

Ana Furtado (de blusa azul) e familiares em Cabo Verde. — Foto: Ana Furtado/Arquivo pessoal

Olhar no espelho

Para o professor Elias Moniz, a conexão dos brasileiros com os cabo-verdianos durante a Copa do Mundo reflete um movimento de “olhar no espelho”. Especialmente quando se fala da Bahia, as semelhanças com o país africano vão muito além da colonização.

Carnaval e São João também são expressões culturais tradicionais em Cabo Verde, e até mesmo a culinária do país tem práticas semelhantes ao que é feito na Bahia. Assim, a herança reside em algo ainda mais subjetivo: a forma de pensar.

“Nossa ligação não é só de aparência física. Culturalmente falando, há uma ligação muito forte não só na língua, é a nossa forma de estar. A forma como encaramos e nos posicionamos no mundo”, aponta.

Copa do Mundo ascende ligação e renova reconhecimento histórico entre nação africana e a Bahia — Foto: Reprodução/TV Bahia

O professor destaca, também como cabo-verdiano, que o Brasil sempre foi encarado como um irmão por ser uma “extensão” da África. Esse aspecto se torna ainda mais forte na Bahia, em especial em Salvador, onde a população de pessoas negras é de 83,2% e os costumes mantém marcas latentes da cultura africana.

“Esse esquecimento, que particularmente vigora do lado de cá na América, não é igual na África. [Lá] Há uma consciência muito clara dessa ligação com o Brasil. Não é à toa que é muito bem quisto. Africanos têm os brasileiros como povos irmãos”.

Ele argumenta que o “esquecimento” que permeia os brasileiros só pode ser superado por meio do estudo da própria história e com o aprofundamento sobre a história da África. “A Copa do Mundo permitiu que aflorassem em vocês, com mais intensidade, essas conexões. Eu imagino o choque que isso pode ter gerado, um choque positivo. Acho que a copa colocou o Brasil em frente a um espelho e, ao nos olharem, de alguma forma vocês se viram”.

Por Iamany Santos, g1 BA

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