Em toda eleição no Brasil, o protagonismo do processo é dividido essencialmente em três partes: candidatos, eleitores e as urnas. Entretanto, outros elementos que compõem essa grande engrenagem são igualmente fundamentais — e uma delas nem sempre é percebida com a devida importância: os mesários.

Autoridade nas seções de votação, esses profissionais — em sua maioria voluntários — são responsáveis, resumidamente, por toda a parte burocrática desse momento, como o ordenamento e orientação aos eleitores. Essa nobre função tem atraído cada vez mais pessoas à cada eleição, de acordo com os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Com exceção das eleições de 2020, marcadas pela pandemia, desde 2016 há um crescimento no número de mesários que atuaram nos processos eleitorais. No último pleito nacional de 2022, foram 1.889.282 no Brasil inteiro; sendo a Bahia responsável por mais de 137 mil pessoas; número esse que aumentou para quase 143 mil na eleição municipal de 2024.
Para o pleito de outubro, o Tribunal Regional Eleitoral na Bahia (TRE-BA) deve ter uma quantidade semelhante de mesários, conforme disse a secretária de Planejamento de Estratégia, Inovação e de Eleições (SPL) do órgão, Luciana Bichara. Ao CORREIO, ela apontou um crescimento de 30 mil novos voluntários apenas neste ano e ressaltou a importância desse aumento para uma eleição grande como a de 2026, visto cada eleitor vai escolher seis candidatos e 19 dígitos no total.
“O mesário faz esse papel (de organizar) que, na eleição, é muitíssimo importante, e nesse ano ainda mais, porque essa é uma eleição grande, então a gente tem aí expectativas de mais filas”, apontou.
Voluntários ou não
Segundo Luciana, a maioria dos mesários que trabalham nos pleitos é composta por pessoas que se voluntariam; porém, há uma parcela menor de pessoas que acabam convocadas nos dias de votação, devido à necessidade de cobrir eventuais faltas ou mesmo pela quantidade não ser suficiente para gerir cada local. Mesmo para os convocados de última hora, a escolha não é feita de qualquer maneira e segue alguns critérios:
“Pessoas que já tenham experiências em eleições passadas, já foram mesários em outras eleições e não pediram para sair, mas não foram convocados antes; servidores públicos; professores; pessoas que tenham um maior nível de instrução”, são alguns dos critérios listados pela secretária.
É bom pontuar que os mesários têm atribuições diferentes nos locais de votação, de acordo com suas funções, que variam entre ‘presidente’, ‘1º mesário’, ‘2º mesário’, ‘1º secretário’ e ‘suplente’. Para deixar os profissionais prontos para os processos, como a emissão da zerésima (relatório emitido antes da eleição para comprovar que cada urna está sem votos), lidar com eventuais problemas de equipamento ou mesmo com o público, treinamentos são feitos antes das eleições, de maneira presencial e também virtual; na Bahia, as capacitações começam a partir de 17 de agosto, segundo o Tribunal.
Outro fenômeno percebido é o aumento dos jovens entre 18 e 20 anos que têm atuado como mesários. Na Bahia, nos pleitos de 2018 e 2022, o número passou de 5.957 para 7.444. Para a jovem Letícia Teixeira, hoje com 22 anos, que foi mesária pela primeira vez em 2024 e vai novamente atuar neste ano, a experiência permitiu ver o “outro lado da moeda” de um processo denso e pouco percebido pelo eleitor comum:
“Basicamente, eu conheci tudo novo. Porque, enquanto eleitor comum, a gente tem poucas informações sobre o processo, no geral, e quem não busca mesmo conhecer, acha que é só aquele básico de chegar, dar o documento, votar e ir embora”.
A opinião também é compartilhada pelo auxiliar de vendas Ricardo Brandão. Atualmente com 39 anos e mesário desde os 18, o morador de Feira de Santana não pensa em deixar o serviço voluntário na “Festa da Democracia”. Para além de estar “exercendo a cidadania” e contribuindo com o processo, ele traz um ponto de vista interessante sobre as atividades:
“É uma oportunidade de você rever amigos de infância, colegas de escola que estudaram com você, os seus vizinhos. Então, para mim é gratificante participar desse evento social”.
Segundo a soteropolitana Letícia, foi “muito importante” a experiência para entender o processo de eleições de maneira mais geral, mesmo com as dificuldades que o cargo enfrenta, especialmente no lidar com o eleitor:
“É um trabalho rigoroso, exigente. Em alguns momentos, até desconfortável, por conta de alguns eleitores que chegavam no final do dia, depois de consumirem muita bebida alcoólica, e já chegavam ofendendo, falando de partido (político). Tiveram algumas ocorrências também, é, que a gente precisou até registrar”.
No dia da eleição, o serviço começa antes do início do pleito e acaba bem depois dos portões fecharem nas zonas e seções, de acordo com Ricardo: “O TRE orienta a gente chegar por volta 7 horas, pelo menos uma hora de antecedência do início da votação, para fazer a montagem da urna, ver se está tudo OK com a energia elétrica, a arrumação da sala, todo o processo de conferência de documentos. Acabando o processo, a gente faz a rotina de término da votação, com algum servidor do TRE, bem depois das 17 horas”, relatou.

Benefícios da função
Mais que o exercício do dever de cidadão, a função de mesário traz alguns benefícios para os voluntários. Além de conceder a dispensa do trabalho (folga) pelo dobro de dias em exercício (incluindo os dias de capacitação), o TRE ainda paga um valor de auxílio-alimentação, que nesta eleição será de R$ 65 e tem uma novidade:
“Nesse ano, o benefício vai ser pago, prioritariamente, em Pix”, contou Luciana Bichara. Vale lembrar que ser mesário ainda conta como critério de desempate em concurso público e também como carga horária complementar para os universitários.
Seja pela “festa” nos bairros e locais de votação, ou mesmo pelos benefícios aplicados, a representante do TRE ainda brinca que o mito entorno da função de mesário tem perdido cada vez mais aderência:
“Tem essa lenda urbana sobre ser mesário, mas depois que a pessoa é pela primeira vez, normalmente, elas gostam muito e querem continuar nas eleições seguintes”.
Por Correio



