
A decisão do governo Lula de se aproximar em demasia do Supremo Tribunal Federal (STF) e, em especial, do ministro Alexandre de Moraes, cobra um preço alto, conforme indica a mais recente pesquisa Atlas/Bloomberg para a presidência da República. No embalo da rejeição ao que se pode chamar de sistema executivo-judiciário, o desafiante Flávio Bolsonaro consegue o que parecia improvável e impossível quando lançou sua candidatura: ultrapassou numericamente, mais uma vez, o presidente Lula, veterano de tantas eleições.
Para vencer, Lula terá de jogar o seu, na prática, aliado na fogueira dos proscritos. O ex-herói de toda a esquerda, Alexandre de Moraes, acabou se tornando hoje o maior símbolo dos conluios e irregularidades brasileiras. Caso o plenário do STF resolva poupá-lo de uma investigação, na próxima terça-feira, o maior beneficiado, eleitoralmente, será o filho primogênito de Jair Bolsonaro. 15 de setembro, se não houver cancelamentos ou adiamentos, será uma data e tanto.
O dilema, portanto, vai além de haver uma ala aliada a Moraes e ao próprio governo dentro do Supremo que deseja poupá-lo. Caso resolvam dar uma mão ao colega em apuros, puxarão de vez o Palácio do Planalto para dentro da crise, talvez de uma maneira irreversível. Vão escolher o amigo ou o governo com o qual são abertamente simpáticos e apoiadores? Neste momento, inclusive, segundo a Atlas, parece que quase qualquer desafiante poderia vencer Lula no segundo turno.
O escarcéu que envolve o ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro-mafioso Daniel Vorcaro tornou-se o mais eloquente favor de decisão de votos nessa reta final das eleições. Opinião pública, muitas vezes, se forma por ondas. E a violenta vaga Moraes-Vorcaro é atualmente a mais vasta — maior do que questões de economia, por exemplo.
O ministro André Mendonça, de maneira maliciosa e maquiavélica, foi quem manipulou esse cenário ao desnudar, a poucas semanas das eleições, os diálogos entre Moraes e Vorcaro? Podemos até especular que sim. Mas agora essa nem é a discussão mais importante para salvar o governo Lula. Porque não adianta mais afastar o relator do caso Master (e também do INSS) com a sujeira fora do tapete. Vai soar como armação e abafamento.
O que deveria importar para os estrategistas do atual presidente é como sair da crise e recuperar-se eleitoralmente. Além disso, caso a esposa de Moraes não tivesse firmado um contrato milionário tão suspeito com o gângster mineiro, esse flanco não estaria a descoberto. Punir Mendonça só vai fazer aumentar essa onda contra a impunidade de alguns.
Flávio parece ter se recuperado nas pesquisas após o baque que sofreu por causa das relações com o Vorcaro (que coincidência de financiador!). Os milhões que pediu, alegadamente, para concluir o filme sobre o pai estão sob investigação. Mas, como não é a racionalidade que determina os movimentos eleitorais, essa turbulência parece ter passado e não tem mais efeitos sobre o antagonista de Lula. O favoritismo, mais uma vez, mudou de lado. O desafio, para o PT, agora, é mudar a direção das marés.
Fonte: Estadão



