
Sepultado no final da tarde deste domingo (11 de outubro de 2026), o radialista Jair Cezarinho, de 74 anos, vai deixar um grande vazio no meio de comunicação da Bahia, notadamente no interior do Estado. Contestador, ético, carismático, revolucionário, criativo e visionário, qualquer um desses adjetivos explica a trajetória deste profissional, que se tornou ao longo dos anos num verdadeiro ícone da comunicação baiana. (Foto reprodução: redes sociais).
Apesar de um pouco afastado nos últimos anos, Cezarinho nunca
deixou de ser uma referência para novos e antigos profissionais da comunicação, seja no meio radiofônico ou no jornalismo. Mesmo sem estar vinculado a qualquer emissora ou veículo nos últimos meses, muitas vezes ele atuava como freelance, ou até colaborando para um amigo, que ele costumava chamar de “parceiro” (Evandro Matos, Jair Cezarinho e repórter Zé Raimundo, após decisão do Baianão 2022 / Foto: Arquivo Evandro Matos).
Nos últimos anos, Jair Cezarinho usou o seu vasto prestigio e conhecimento para promover eventos com comunicadores de toda a Bahia e de outros estados brasileiros. Os eventos serviam para a
troca de ideias, discussão de pautas relacionadas ao meio da comunicação e aproximação entre os profissionais de diferentes regiões, que aproveitavam para apresentar as suas demandas. Durante alguns anos, com o suporte do SINJORBA, ABI e outras entidades, ele levou o evento para locais como Feira de Santana, Jequié, Juazeiro, Serrinha, Tucano, Alagoinhas e Salvador.
Ex-diretor do Sindicato dos Radialistas de Feira de Santana, Jair Cezarinho também foi diretor do SINJORBA (Sindicato dos Jornalistas da Bahia) e da ABI (Associação Baiana de Imprensa), funções que usou para interagir a capital com o interior e reforçar a presença em todas as regiões. (Acima, flagrante de um evento com a imprensa, realizado em Feira de Santana / Foto: Arquivo Evandro Matos).
Histórico narrador esportivo
No meio radiofônico, Jair Cezarinho teve uma carreira vencedora. Começou como plantonista, avançou como repórter e depois como narrador e âncora de resenha esportiva e do jornalismo. Como repórter, o seu maior feito foi ter entrevistado o Rei Pelé durante um amistoso do Santos, em 1975, contra o Fluminense de Feira de Santana, no estádio Joia da Princesa (Ao lado, o registro da famosa entrevista com Pelé, no Joia / Foto: redes sociais).
A história de Cezarinho como narrador foi marcada por muito sucesso, mas também por muita luta e criatividade. Ele passou pela antiga Rádio Cultura, Sociedade de Feira e na antiga Carioca, que depois viraria Rádio Povo. Foi nesta emissora que ele montou uma equipe de esporte que marcou época, que tinha ele e Paulo José
(no início foi repórter) como narradores, Jota Lacerda, Jorge Bianchi e Jota Vieira como repórteres, Evandro Matos, Zadir Marques Porto e Luiz Gonzaga como comentaristas, além de Jurandir Silva como plantonista. (Ao lado, Jair e Evandro Matos na reinauguração do Estádio Rei Pelé, em Maceió – AL / Foto: Arquivo Evandro Matos).
Dinâmico e visionário, Jair fez cinco Copas do Mundo, conheceu quase 20 países e chegou a falar com o Papa. A sua Copa mais destacada foi a dos Estados Unidos, em 1994, onde fez um brilhante trabalho com o repórter Jota Lacerda, pela Rádio Carioca,
onde ele tinha um horário arrendado, com resenha às 7h da manhã. Em 1998, ele também esteve na França, mas não conseguiu trazer o titulo para o Brasil, como aconteceu quatro anos antes. (Ao lado, Jair Cezarinho e Jota Lacerda com uma equipe de TV, na Copa dos Estados Unidos, 1994 / Foto: Arquivo de Jota Lacerda).
Como narrador, uma das marcas de Jair era a criatividade. Quando a sua bela vinheta lhe anunciava, seu vozeirão ecoava por toda
Feira de Santana. E ele trazia vários bordões e frases de efeito, arrebanhando fãs pela Bahia afora. Um dos mais famosos dos seus bordões foi o “Se o rádio tivesse sido inventado antes da televisão, as crianças sairiam gritando: mamãe! mamãe! Inventaram uma televisão sem imagem, galera!”, isso, numa alusão à força do rádio. E de repente ele vinha com outra: “Moderno? Moderno em relação a que? Moderno é um pressuposto…”. E mais uma: “Ouçam os loucos, porque os loucos também têm história pra contar”. (Ao lado, Jair Cezarinho e Evandro Matos, em Bragança Paulista, na final do Brasileirão / Foto: Arquivo Evandro Matos).
Jair Cezarinho também foi narrador da Rádio Sociedade de Feira, onde fez dobradinha com o também narrador Itajay Pera Branca, proporcionando um grande momento do rádio esportivo feirense à época. Em Salvador, Jair também narrou para as rádios Metrópole (equipe de Edson Marinho) e Excelsior (equipe de Mário Freitas).
Sepultamento e história
O corpo de Jair dos Santos Cezarinho foi sepultado neste domingo (11), por volta das 16h, no Cemitério da Piedade, em Feira de Santana, por familiares, amigos, colegas e admiradores. O velório aconteceu no Memorial Pax Bahia, no bairro Sim, desde as 12h do sábado (10). Durante o velório, dezenas de colegas da comunicação e amigos prestaram solidariedade aos familiares (Sepultamento no Cemitério da Piedade / Foto: Evandro Matos).
Estiveram presentes no velório e sepultamento personagens da
comunicação e do mundo politico, como: Dílson Barbosa, Valter Vieira, Evandro Matos, Luiz Santos, Paulo José, Jorge Bianchi, Silvério Silva, Wilson Mário, Elsimar Pondé, Frei Cal, Júlio Eleotério, Mário Gonçalves (vice-prefeito de Serra Preta), Zelitinho (ex-prefeito de Serra Preta), Tarcísio Pimenta (médico e ex-prefeito de Feira de Santana), José Raimundo (ex-secretário de Educação e ex-prefeito de Feira de Santana), Edmilson Santos (Radialista), Edmundo Filho (Coordenador do Núcleo de Rádio do Governo do Estado), Mascarenhas (da torcida organizada Garra Tricolor), além de outros jornalistas e radialistas que estiveram na cobertura para sites, blogs, rádios e TVs. (ao lado, Dílson Barbosa, que se mostrou amigo e solidário a Jair / Foto: redes sociais).
Cezarinho estava internado no Hospital Dom Pedro de Alcântara, onde passou cerca de 30 dias. Ele lutava contra um quadro de depressão há mais de um ano, por isso havia se afastado do meio radiofônico, como revelou o médico e ex-prefeito Tarcísio Pimenta ao site Casos de Policia. “Ele se isolou do mundo. Isolaram ele, e ele também se isolou. Começou a entrar em um quadro depressivo severo, que o afastou ainda mais das pessoas”, disse, em tom de crítica, Tarcísio, que era amigo de Jair e falou com ele dois dias antes da sua partida. Contudo, Cezarinho apresentou outros problemas de saúde graves, o que abreviou a sua vida repentinamente. (Tarcisio Pimenta: / Foto: Carlos Augusto / Jornal Grande Bahia).
Mesmo fora dos holofotes, o icônico comunicador sempre era procurado e chegou a abrir várias portas no interior para o governador Jerônimo Rodrigues quando acompanhava a sua agenda pelos municípios e o apresentava nas emissoras de rádio que ele tinha grande penetração e amizade (Foto: redes sociais).
Fruto dessa aproximação, foi de Jair Cezarinho também a marca “Jero”, uma forma abreviada do nome do governador que passou a ser usado em todas as suas peças de marketing e na campanha
eleitoral deste ano. Na época em que a ideia surgiu, foi lançada uma camisa inspirada nas “tiradas” do comunicador com o texto “Se saia! Jero é meu parente, Jero é meu irmão”.
Filho de Alfredo Cezarinho, que foi um ex-jogador do Fluminense de Feira, e o primeiro a marcar um gol quando o clube se tornou profissional, Jair se tornou um torcedor do Touros do Sertão e chegou a ser seu diretor durante a gestão do prefeito Tarcísio Pimenta, onde também atuou na Secretaria de Comunicação. Por ser torcedor, uma bandeira do Fluminense foi colocada sobre o seu
caixão. Jair também era torcedor do Botafogo-RJ.
Jair Cezarinho deixa duas irmãs (uma reside em Feira de Santana e a outra em Alagoinhas) e um filho, Júnior Boka, que ficou ao lado dele durante todo o tempo, inclusive levando para morar em sua casa quando descobriu a situação debilitada do pai. Jair também conviveu durante 22 anos com com Nice, hoje funcionária aposentada da UEFS, que, inclusive, esteve ao lado dele durante todo o período em que esteve internado, no velório e no sepultamento. (Ao lado, Jair Cezarinho com o filho Júnior Boka e a nora / Foto: Arquivo Jota Lacerda).
Despedida
Dezenas de colegas estiveram presentes durante o velório e sepultamento do corpo de Jair Cezarinho neste final de semana. Alguns deles fizeram questão de gravar depoimentos para as emissoras de rádio, tv, blogs e canais do Instagram sobre a figura de Jair Cezarinho. De Fortaleza (CE), o repórter Jota Lacerda também mandou uma mensagem. Confira abaixo:
Jorge Bianchi, repórter lançado por Jair Cezarinho: É algo realmente
que nos entristece porque perdemos um grande amigo, um homem que abriu as portas do rádio de Feira de Santana para mim, trabalhando ao seu lado, ao lado de Jota Lacerda, de Evandro Matos, de Jota Vieira, de Jurandir Silva, de Luiz Gonzaga, de tantos talentos. Jair Cezarinho vai ter a minha eterna gratidão por tudo que ele fez por mim, por tudo que ele fez pelo rádio de Feira de Santana, narrador esportivo, âncora de programas jornalísticos, repórter, homem que fez grandes transmissões internacionais. Então, Jair deixa esse grande legado. Eu já estava quase desistindo do rádio, porque já tinha passado em muitas emissoras e não tinha conseguido me firmar, mas ele veio e me chamou… Então, ele tinha essa grande característica de revelar novos talentos. E que equipe maravilhosa Jair formou no rádio esportivo de Feira, numa época em que tinha uma disputa muito acirrada com a rádio Sociedade, e Jair Cezarinho conseguia fazer a diferença na antiga rádio Carioca. Então, foi uma equipe brilhante, que fez um grande trabalho e que entrou para a história do rádio esportivo de Feira de Santana e da Bahia. Depois, Jair saiu, fez a Copa de 94 pela rádio Carioca ainda, depois foi para a rádio Sociedade e militou em várias rádios. Ele deixa um extraordinário legado para o rádio, essa grande figura que não é conhecida e respeitada apenas em Feira de Santana, mas também no rádio baiano e brasileiro.
Paulo José, repórter e narrador da equipe de Cezarinho na Rádio Carioca (Povo): Jair Cezarinho tá deixando um grande legado. Eu fui um privilegiado por ter trabalhado com Jair dos Santos Cezarinho, aprendi muito e comecei no segmento esportivo com Jair Cezarinho, eu setoriava o Fluminense e levava o noticiário para a resenha, às 7h da manhã. Falar de Cezarinho é muito fácil, Cezarinho foi uma grande figura, uma cara que abria portas em qualquer lugar que chegava, e hoje a gente tem essa triste notícia, de estar aqui no velório, velando o corpo de Jair. É um momento muito triste para todos nós do rádio esportivo, do rádio de modo geral, e do jornalismo, que tive a oportunidade de trabalhar e integrar uma equipe comandada por Jair Cezarinho.
Jota Lacerda, repórter da equipe de Jair na Rádio Carioca (Povo), hoje está na rádio Assunção, Fortaleza-CE: É um dia muito triste pra mim, pra todos nós que tivemos a amizade de Jair Cezarinho. Nós perdemos um irmão. Jair tinha uma capacidade incrível de ser recebido e receber a todos por onde passava. E Jair nos recebeu de braços abertos. Já ouvi e vi várias manifestações verdadeiras depois da partida dele. Naquele momento em que ele passou a fazer um trabalho solo, e que acolheu muitos de nós, abriu portas, ajudou,
naquele trabalho incessante que ele fazia, em que acompanhou Copas do Mundo, campeonatos Brasileiros, campeonatos estaduais… Enfim, um cara fantástico, me acolheu, me convidou para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Lá fizemos um grande trabalho. Mandamos o furo de notícias do doping de Maradona, ninguém havia ainda explorado a informação quando nós mandamos para o ar, isso no final da tarde, aqui no Brasil, e a noticia só foi divulgada oficialmente pelo Jornal Nacional, às 8h da noite. Jair era fanático pelo trabalho, ele só trabalhava e era um grande companheiro. Bom, fica o legado. Descansa em paz, Jair!
Marcilio Costa, ex-diretor da TV Subaé: Eu quero falar de Jair, do amigo. Sabe, Jair era um amigo. Sabe aquele amigão? Eu escrevi hoje no meu Instagram os agradecimentos e o carinho que ele teve comigo o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo… Nós estivemos juntos no SINJORBA, ABI, no Zero Hora, que ele não largava aquele bloco… depois que a colega Cida faleceu, Jair foi pra frente e segurou o bloco. Enfim, ele tinha essa característica de estar sempre mexendo com coisas coletivas, que tinham interesses não exatamente para Jair, mas para a coletividade e a comunicação. Profissional fantástico, tinha um potencial maravilhoso. Conheci Jair de muitos anos, essa caminhada foi sempre muito próxima. Jair sempre foi muito gentil, muito gentil, muito gentil… Já falei com Júnior, o filho dele. Falei do sentimento que é perder Jair e agradeci mais uma vez toda atenção que ele me dedicou durante a sua vida.
Por Evandro Matos



