O cantor e compositor Del Feliz voltou a alertar para a escalada dos custos do São João na Bahia e defendeu o resgate da tradição cultural como caminho para garantir a viabilidade econômica da maior festa popular do Nordeste. Em entrevista ao programa Levante a Voz, da Rádio Sociedade, o artista comentou a mobilização de prefeitos baianos que reclamam dos cachês milionários cobrados por atrações nacionais.
Segundo Del Feliz, a preocupação manifestada agora pelos gestores municipais reforça um alerta feito há décadas por artistas e defensores da cultura nordestina. “A festa junina é a nossa festa mais completa, representa a fé, a comida, o jeito de se vestir, a dança e, principalmente, o forró. Mas ela só é economicamente viável quando mantém a sua tradição”, afirmou.
O forrozeiro criticou a descaracterização do São João ao longo dos anos, com a substituição dos artistas regionais por grandes atrações midiáticas. Para ele, os principais prejudicados foram os forrozeiros tradicionais, que acabaram excluídos dos grandes palcos. “A festa foi espetacularizada. Virou a festa do grande palco, e o forró tradicional foi praticamente banido. Os verdadeiros representantes da cultura regional ficaram de fora”, lamentou.
Del Feliz explicou que a inflação dos cachês é consequência direta da concentração de atrações nacionais em um curto período, com cerca de 300 municípios baianos realizando festejos simultaneamente. “Tivemos artistas fazendo até 50 shows no período junino. Claro que isso iria inflacionar. Hoje tem artista pedindo mais de dois milhões de reais por um único show”, destacou.
O cantor lembrou ainda a criação da chamada Lei da Zabumba, aprovada na Assembleia Legislativa da Bahia em 2015, que previa a destinação de parte dos recursos públicos para a valorização da cultura regional e dos artistas tradicionais. Apesar de aprovada, a lei nunca foi regulamentada. “A ideia era evitar a descaracterização da festa e garantir espaço para quem representa de verdade essa cultura”, explicou.
Questionado sobre a possibilidade de reverter o cenário já para este ano, Del Feliz disse acreditar na mudança, mas ressaltou que é necessário compromisso político. Ele citou movimentos recentes de valorização do forró, como a campanha para torná-lo patrimônio cultural do Brasil e da humanidade, além de ações internacionais de promoção da cultura nordestina. “Há uma movimentação importante e um interesse político crescente em valorizar essa cultura, que é essencial também do ponto de vista turístico e econômico”, afirmou.
Para o artista, a identidade cultural é o principal atrativo da festa. “Ninguém sai de outro país para vir a um São João que não tenha forró. Já ouvi relatos de turistas frustrados por não encontrarem a música que simboliza a festa”, disse
Ao final da entrevista, o cantor reforçou que não defende exclusões radicais, mas sim equilíbrio e responsabilidade. “Os prefeitos precisam avaliar se têm condições de pagar cachês milionários. Mais do que isso, o São João precisa ser respeitado culturalmente. É isso que torna a festa mais bonita e faz com que as pessoas queiram participar”, concluiu.
Del Feliz informou ainda que há expectativa para a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), com participação do Ministério Público e entidades culturais, como forma de estabelecer critérios de responsabilidade econômica e valorização cultural para os festejos juninos na Bahia. (Fonte: Conectado News).



